Recentemente, ao passar por algumas cantinas da cidade de Luanda, deparei-me com uma imagem profundamente inquietante. Numa delas, vi óleo de cozinha embalado em pequenos pacotes de 5 onças. Noutra, açúcar acondicionado na mesma medida. À primeira vista, parece uma adaptação comercial qualquer. Mas, na verdade, essa prática revela um fenômeno mais grave: a normalização da escassez.
Esses pacotes de 5 onças o equivalente a aproximadamente 147 mililitros de óleo ou 140 gramas de açúcar não são mera conveniência. Representam a fratura do poder de compra, a decadência do consumo básico e o empobrecimento silencioso da população. É como se a sobrevivência estivesse sendo repartida em pequenas frações, como migalhas negociadas à margem da dignidade.
A miniaturização da sobrevivência
Trata-se de um novo tipo de violência: discreta, sem manchetes, mas devastadora. Estamos a assistir à miniaturização da sobrevivência. Quando os bens essenciais passam a ser vendidos em porções ínfimas, não se trata de inovação de mercado trata-se da institucionalização da precariedade. O cidadão é forçado a ajustar a sua fome à medida do que pode pagar, e não mais à medida do que precisa para viver com dignidade.
Será isto uma política de contenção da pobreza ou um espelho da sua expansão?
Onde está o Estado?
É preciso interpelar as autoridades públicas: onde está o Estado diante desse cenário?
Qual é o papel do Ministério do Comércio, da Defesa do Consumidor, da Economia e Planeamento, diante dessa tendência? Quem regula esse novo “mercado das sobras”?
Permitir que o essencial se transforme em mercadoria fracionada à beira da miséria é legitimar a degradação humana.
Trata-se, aqui, de muito mais do que apenas economia. É uma questão de justiça social. É uma denúncia do abandono estratégico das camadas populares, que sobrevivem entre improvisos e desespero, enquanto os indicadores macroeconômicos são celebrados em discursos oficiais.
A falácia da acessibilidade
A venda de óleo ou açúcar em pacotes de 5 onças é apresentada como uma solução “acessível” para os pobres. Mas essa acessibilidade é uma falácia. O que se vende não é inclusão é resignação. O que se compra não é dignidade é sobrevivência mínima. É o símbolo de um país que produz riqueza, mas cujos filhos vivem sob a gestão da escassez.
Essa prática revela também um tipo de oportunismo cruel, que lucra com a miséria e naturaliza o inaceitável. Não podemos aceitar que o empobrecimento seja mascarado por estratégias de embalagem.
Um apelo à consciência nacional
É preciso romper o silêncio.
Hoje, vendem-se alimentos básicos em medidas reduzidas. Amanhã, será o sabão cortado em centímetros, o arroz embalado em envelopes, e talvez o combustível vendido em gotas.
Se não houver uma reação institucional, popular e crítica, estaremos a caminho de um modelo de sociedade onde a dignidade será proporcional à quantidade que se pode comprar e não ao valor humano de cada cidadão.
É urgente repensar as prioridades nacionais. O povo angolano merece políticas públicas sustentáveis, medidas sociais eficazes, e um governo que reconheça que a fome disfarçada de “acessibilidade” é uma das formas mais perigosas de violência social.
Porque, se aceitarmos calados essas pequenas porções, amanhã também aceitaremos metade dos nossos direitos.

